Copas, ouros, espadas e paus

Que coisa impressionante. Por mais que possa considerar um absurdo, tenho que me render aos fatos: o tal do futebol é um potente alucinógeno que transforma a vida e o comportamento das pessoas por um tempo variável dependendo da dose aplicada. Se na rua temos o famigerado “crack”, nos campos é o craque que leva a uma catarse coletiva que bloqueia o intelecto do torcedor impedindo-o de ter qualquer reação racional que não seja a tensão a flor da pele, mescla de momentos de silêncio sepulcral com rompantes de ira incontrolável e, invariavelmente, desemboca na tristeza desproporcionada quando do revés ao poderio inimigo, ou na euforia desbragada, no orgasmo superlativo em se gritar ‘gooooooll!!’ a todo pulmão, aquele gol da vitória. E aí então sair saltitando, emitindo grunhidos feito um animal irracional e a seguir ver-se às lágrimas, postado de joelhos, agradecendo a Deus pela dádiva ofertada. Não se tem medida do prazer proporcionado quando o time do coração estufa a rede do adversário. É algo pavloviano. Meu tio Jadyr, um fanático palmeirense, emérito professor de ciências, assim já definia tal sensação e usava poeticamente ludopédio como sinônimo diferenciado para o futebol, pois considerava este esporte a oitava arte.

Sendo assim, a Copa das Copas vai transcorrendo dentro desta normalidade passional, não dando espaço a manifestações que quebrem o encanto desta magia. Tem que se dar crédito a esta multidão de estrangeiros que estão de férias no Brasil, onde o primeiro compromisso é divertir-se. O bom humor dos estrangeiros sufocou o mau humor nacional. E por que diabos eles se preocupariam com algum problema nosso? O que importa a eles é a farra!  Não há desorganização ou falta de estrutura que derrube o ímpeto de quem vem para festejar. E nós, como bons brasileiros, pegamos carona com facilidade neste embalo porque aqui na terra tupiniquim ninguém é de ferro, certo? É só beijinho no ombro e um abraço!

O clima está a caráter. Nossa seleção está nas oitavas de final e o pessoal cada vez mais ouriçado faz planos na casa de quem ou qual outro local será a reunião para ver o jogo contra o Chile. A brasilidade está porejando! “Vai Brasil!” é o grito do momento. O senso patriótico do povão está aflorado, apesar das inúmeras oportunidades desperdiçadas que se tem em utilizá-lo para fins mais nobres da cidadania do que uma simples partida de futebol e não se faz. Mas não é tempo de preocupar-se com isso. O tempo agora é de Copa! Discutir o padrão FIFA e sua maneira bandalha de ser e agir também fica para outra hora.

Eu lembro que minha vida de copista-campeão começou na Copa de 1958. Com seis anos morava no Largo do Arouche, centro de São Paulo. Andávamos de bonde, fotografia era em preto e branco e tudo se ouvia pelo rádio em ondas curtas. Ajudava meu pai a cortar jornal em pedacinhos para jogar do alto de nosso prédio a cada vitória da seleção. Que felicidade ver o Brasil campeão na minha primeira Copa! O carro do Corpo de Bombeiros passou pela Avenida São João com o capitão Bellini erguendo a taça, e eu assisti a tudo do colo do velho Argemiro, pai querido.

Já em 1962, na Copa do Chile, escutávamos os jogos pelo rádio com a locução de Pedro Luiz e comentários de Mário Moraes e dois dias depois assistíamos, já bem calmos, o vídeo – tape das partidas em preto e branco na televisão valvulada. Neste campeonato os destaques foram o Zito, o Vavá, o Garrincha e sem dúvida a carismática figura do Dr. Paulo Machado de Carvalho, o marechal da vitória. Impressionante: minha segunda Copa e fui campeão outra vez!

Agora a de 1970, esta sim foi “a Copa das Copas”! Tudo conspirava a favor: eu iria fazer 18 anos, entrar para a faculdade, tinha namorada firme e no Brasil sobravam bons jogadores. Colocaram um grande cara para montar a seleção, o jornalista João Saldanha, que contestou o presidente Médici em plena ditadura militar e estava pouco se importando com as consequências. Foi tirado do cargo, mas foram as “Feras do Saldanha” que ganharam a Copa. Dava gosto assistir as partidas, agora já com transmissão ao vivo pela televisão. Exceção ao Santos Futebol Clube de Gilmar, Lima, Mauro, Dalmo (o querido Dalmo), Zito e Calvet; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, esquadrão que foi e será inigualável, esta seleção foi o melhor time de futebol que já vi jogar, apesar do Félix e do Brito (viver sem emoção não tem graça).

O nosso tetracampeonato em 1994 nos Estados Unidos foi uma das coisas mais insossas que já presenciei em futebol. A nossa ‘idade de copas’ vai aumentando e vamos ficando mais intolerantes. Para falar a verdade lembro mais daquele grito chatíssimo do Galvão Bueno” – Vai que é tua Taffarel! “do que das atuações do time brasileiro. Uma bosta.

Já o penta de 2002, todos lembram com alegria pela determinação de um homem competente no ofício- o técnico Felipão- que conseguiu motivar o bom elenco que possuía nas mãos, transformando o grupo ‘em família”. Louve-se a recuperação do Ronaldo. Ganhamos na boa e está sem dúvida foi a copa mais tranquila de todas que vivenciei.

Esta é minha 15ª Copa do Mundo e hoje o que temos “em família” é só a novela da Globo que, diga-se de passagem, é uma tragédia. Espero sinceramente que nosso time avance na competição, pois não quero ressuscitar o fantasma do “imagina na Copa!” que tanto se comentou. Imagina na próxima etapa da Copa, se o Brasil for logo eliminado?

Imagina a Copa do Brasil sem o Brasil?  Em vez de Ouros, sobrará Paus e Espadas.

Falando em Copa… A Copa do Mundo 2018 está muito próximo e todos estão muito ansiosos para as novidades e surpresas que virão. A Copa este ano será disputada na Rússia, bem distante do Brasil, o que faz com que a transmissão dos jogos seja em horários diferentes.

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