|
PATRÍCIA ROCHA
|
A
impaciente
no trânsito,
de
mulheres
elegantes
e homens
discretos.
Sobra até
para o
aclamado
pôr-do-sol,
que,
para
eles,
parece não
ser tão
especial
como os
gaúchos
se
orgulham
em
anunciar
aos recém-chegados.
A
primeira
descoberta
sobre
Porto
Alegre
é que há
prédios,
avenidas
movimentadas,
vida
cultural
e
noturna
mesmo
longe do
centro
do país.
–
Só
tinha
ouvido
falar de
Brasília,
Rio e
Bahia
pelas
novelas
que
assistia
em
Angola.
Não
fazia idéia
de Porto
Alegre e
achei a
cidade
bonita
–
lembra a
universitária
angolana
Rosa de
Almeida,
há sete
anos na
cidade. |
|
|
A
universitária
angolana
Rosa de
Almeida é
freqüentadora
do Parque
da Redenção
(foto
Paulo
Franken/ZH) |
O
cotidiano
permite as novas
descobertas:
Porto Alegre
ainda não está
devidamente
preparada para
receber
estrangeiros.
Poucas pessoas
falam inglês, e
faltam cardápios
bilíngües em
restaurantes,
guias das linhas
de ônibus nas
bancas (muito
comuns nos
Estados Unidos)
e informações
facilitadas para
turistas. A
burocracia
transforma em
problema a
tentativa de
alugar um
apartamento e até
missões
simples, como se
associar a uma
videolocadora.
–
Tudo fica quase
impossível se não
tiver o famoso número
de CPF – diz o
espanhol técnico
em relações
internacionais
Pedro Lucendo,
que chegou neste
ano.
Se
falta estrutura,
parece sobrar
calor. A maioria
dos estrangeiros
aprende português
nas ruas, lojas
ou pela paciência
de colegas de
trabalho e
amigos. Há dois
anos na cidade,
a japonesa Ayako
Kamijo treinou o
idioma no cinema
onde trabalhou
como voluntária.
Os colegas
escreviam frases
que ela não
sabia dizer,
enchendo sua
mesa de bilhetes
como “hoje, o
chefe está
trabalhando
fora”:
–
Aprendi português
praticamente
conversando. Os
brasileiros são
muito simples e
têm muita paciência
com
estrangeiros.
A
história gaúcha
é marcada pela
imigração, que
transformou a
Capital em uma
cidade
multicultural e
receptiva a quem
vem de fora. Nas
palavras do
psicanalista
argentino
Alfredo
Jerusalinsky, há
26 anos na
cidade, a
sociedade local
é
individualista,
mas solidária,
como a figura do
gaúcho, o solitário
dos pampas,
sempre solidário
com quem
encontra. Mais
que
hospitaleiro, o
povo parece ter
uma curiosidade
inesgotável
sobre outras
culturas,
transformando um
recém-chegado
em fonte de
informação.
–
Esse interesse
foi uma das
coisas de que
mais gostei.
Pensava “ah,
eles são como
minha gente”
– conta o
australiano Ian
Alexander,
casado com uma
gaúcha.
Tanta
curiosidade, às
vezes, pode
parecer
agressiva. A
americana
nascida no Havaí
Debra Godoy
chegou à
Capital há 20
anos, depois de
ter morado em São
Paulo. Suas feições
orientais
causavam espanto
na rua, e ela se
sentia
constrangida com
os olhares.
Ayako era
apontada na rua
ao som das
palavras
“japonesinha”
e olhos
fechados”.
Apesar de ser
uma cidade onde
diferentes
povos, como
judeus, árabes
e alemães,
convivem
pacificamente,
Porto Alegre
mostra uma tendência
à homogeneidade
européia.
Pessoas de
outras origens
chegam a
provocar um
estranhamento,
que, para
Jerusalisnky, é
sempre pacífico
e hospitaleiro.
–
No início, me
sentia um ET e
queria voltar
para São Paulo.
O povo daqui
parecia fechado,
como o europeu e
o americano, mas
consegui me
entrosar. Hoje,
gosto da
qualidade de
vida de Porto
Alegre – diz
Debra, que
atualmente mora
em Gravataí,
mas trabalha na
Capital.
Os
estrangeiros
trazem na
bagagem culturas
e valores
distintos que
lhes permitem
olhar cada traço
da cidade com
mais
objetividade e
descobrir nuanças
imperceptíveis
aos nativos. Da
gastronomia ao hábito
de puxar papo em
paradas de ônibus,
tudo é novidade
apreendida e
analisada de
acordo com a
origem de quem a
vê. Nesse jogo,
é possível ver
diferentes versões
de Porto Alegre
ou enxergar a
cidade e seu
povo como se
fosse um recém-chegado.
Confira como a
Capital está
refletida nesses
diferentes
olhares nas páginas
a seguir.

A
GASTRONOMIA
Quem
nunca ouviu
falar dos gaúchos
chega a Porto
Alegre e depara
com uma cena
inusitada:
grupos de
pessoas que se
sentam em roda e
passam de mão
em mão um
artefato
estranho, com
uma erva verde e
um canudo metálico.
Sim, o chimarrão
causa espanto.
Ou mesmo medo.
Apavorada com a
fama de violência
escancarada do
Brasil, a
angolana Rosa de
Almeida achou
que o chimarrão
era uma droga
consumida a céu
aberto e
carregada de um
lado a outro,
com direito até
a bolsas
especiais.
 |
–
Pensei
“que
horror,
eles se
drogam ao
ar
livre”.
Depois,
descobri
que era um
simples chá
–
diverte-se
Rosa, há
sete anos
no Estado.
Rosa
se tornou
adepta do
chimarrão.
A japonesa
Ayako
Kamijo foi
mais longe
e aprendeu
até a
preparar a
bebida,
que toma
quase
diariamente.
Mas ainda
falta um
detalhe:
ela não
tem
coragem de
levar o
chimarrão
para praças
e parques. |
–
Os japoneses
jamais fariam
isso sentados na
rua (risos). Sou
pré-gaúcha.
Mas gosto de
olhar as pessoas
que tomam à
vontade –
conta ela.
O
gosto amargo e o
hábito de
compartilhar a
bomba com outras
bocas espanta
muitos
estrangeiros,
como o casal
francês Jean e
Gwen Rémond.
Mas se o chimarrão
divide opiniões,
o churrasco é
unanimidade.
–
É um dos
motivos que me
fazem ficar aqui
– exagera o
alemão Ralf Krämer,
há cinco anos
no Estado.
Depois
de penar com a
escassez de
carne em tempos
de vaca louca, o
espanhol Pedro
Lucendo se
atirou nas
churrascarias até
enjoar. Agora, há
três meses
longe de Madri,
sente falta da
variedade de
produtos,
principalmente
de queijo. A
queixa é a
mesma do casal
francês.
–
Falta cultura de
comida e
sofisticação.
Na França, há
também mais
produtos
diferenciados
– diz Jean.
Os
estrangeiros são
unânimes em
dizer que,
embora o feijão
com arroz
conquiste a
todos, cansa
pela monotonia
do cardápio,
que não varia
muito no
decorrer da
semana.
–
O brasileiro
gosta de fazer
sempre o mesmo,
e o americano
prefere comidas
sempre
diferentes.
Dificilmente
vamos ao mesmo
restaurante no mês
– diz Andrew
Deutsch,
americano há
oito anos no
Estado.
Outra
queixa: pouca
diversidade de
restaurantes e
preços muito
caros nos que
servem comida
internacional.
Mas tudo é
questão de
ponto de vista.
Rosa, de Angola,
só foi conhecer
as gastronomias
árabe, italiana
e chinesa no
Brasil. A
reclamação
dela é que a
comida gaúcha
teria pouco
tempero, contra
a crítica do
australiano Ian
Alexander, para
quem tudo
parecia ter
gosto de sal no
início. Mas não
é só o que vai
ao prato que
mostra as
diferenças
entre os povos.
A americana
Debra Godoy não
entende por que
tantos pudores
em pedir para
embrulhar e
levar para casa
as sobras da
comida pela qual
já pagou –
atitude normal
nos Estados
Unidos. Isso
quando resta
alguma coisa no
prato.
–
Aqui, as
mulheres comem
muito. Fico
pensando quantos
estômagos elas
têm -
surpreende-se
Ayako.

A
MODA
O
visual das
mulheres gaúchas
poderia ser
descrito assim:
mais ousado que
o das americanas
e australianas,
menos
sofisticado que
o das francesas,
muito mais
provocante que o
das japonesas e
parecido com o
das angolanas. E
o modelito dos
homens seria
praticamente
igual ao do
resto do mundo.
O
status da moda
gaúcha muda de
acordo com a
nacionalidade de
quem a avalia,
mas um atributo
ninguém nega às
porto-alegrenses:
elas são muito
vaidosas,
oscilando entre
a busca de elegância
no inverno e
sensualidade no
verão.
 |
–
Elas
gostam
muito de
se
arrumar,
bem mais
do que na
França. E
muitas
preferem
cabelos
compridos,
ao contrário
das
francesas
– diz
Gwen Rémond,
há três
anos no
Estado.
O
olhar
estrangeiro
também
detectou
outra
unanimidade
– as
roupas
justas e
decotadas,
diferente
do que se
usa na
Austrália
e no Japão,
por
exemplo. A
japonesa
Ayako
Kamijo
surpreendeu-se
também
com uma
atitude
das
brasileiras
aclamada
como uma
conquista
dos anos
70,
celebrizada
pela atriz
Leila
Diniz:
exibir
orgulhosamente
a barriga
de
gestante.
-
Para
os
japoneses,
isso é
feio, mas
um amigo
brasileiro
me
explicou
que aqui
é bonito
– diz
Ayako.
A
descontração
tropical
em roupas
e
comportamento
é
surpresa
para
culturas
mais
formais.
Ir à
faculdade
de bermuda
e chinelos
de dedo e,
ainda por
cima,
apoiar os
pés sobre
outra
cadeira na
sala de
aula é
uma cena
dificilmente
vista em
Angola. Já
na Austrália
estranho
seria
enfrentar
um calor
de 38°C
de calça
comprida,
como é
praxe (ao
menos para
os homens)
na maioria
dos locais
de
trabalho
do Estado,
mesmo em
ambientes
sem
ar-condicionado. |
–
Na Austrália,
dava aulas de
bermuda e sandália.
Em Porto Alegre,
parece haver uma
mentalidade de
forçar a barra
e dizer: aqui
tem frio, sim
– afirma Ian
Alexander.
Os
homens vão para
o trabalho
vestidos com
formalidade,
enquanto a
maioria das
mulheres explora
as
possibilidades
do calor no
visual – outra
regra não-compreendida
pelos estranhos
no ninho.
–
Perguntei por
que os homens não
usavam roupas
mais abertas
como as
mulheres. Eles
se vestem como
os japoneses –
conta Ayako.
A
resposta para a
pergunta Ayako
descobriu
involuntariamente
mais adiante. No
Brasil, o corpo
da mulher é que
está
costumeiramente
exposto e sob
julgamento:
–
Um dia, estava
no banheiro do
aeroporto e
achei engraçado
as mulheres
olharem o próprio
bumbum no
espelho. Pensei
“o que elas
estão
fazendo?”.
Depois, me
explicaram que
aqui o bumbum é
muito
importante.

OS
HÁBITOS
Se
o resto do
Brasil estranha
a mania gaúcha
de dar três
beijinhos,
imagine os
estrangeiros.
Ainda mais por
ser preciso
decorar regras
como só beijar
as pessoas do
sexo oposto e
deixar as mãos
(de preferência
uma só) sobre o
ombro da outra
pessoa. Para os
gaúchos, tudo
isso é banal,
mas para quem
vem de fora é
uma curiosa
novidade.
–
Em Sidney, abraços
são mais comuns
do que beijos,
que são
considerados
mais íntimos.
Aqui, o único
amigo que abraço
é um argentino,
porque os
brasileiros se dão
tapas nas
costas. Com as
mulheres, às
vezes vou para o
terceiro beijo,
e elas fogem
dizendo que já
são casadas –
conta o
australiano Ian
Alexander.
O
beijo também
causa
estranhamento
nas festas. A
moda do ficar,
em que dois
estranhos mal
conversam e logo
se beijam, ainda
espanta a
universitária
angolana Rosa de
Almeida, há
sete anos no
Brasil. Em
Angola, a azaração
e seu previsível
desfecho não são
tão declarados
como aqui. Mas não
são apenas os
beijos ao vivo
que causam
surpresa, os
telefônicos
também.
–
Acho estranho
terminar a ligação
dizendo “um
beijo” ou
“um abraço”,
mesmo se as
pessoas nem se
conhecem – diz
o americano
Andrew Deutsch.
Se,
às vezes, os
brasileiros
parecem afetivos
demais, outras,
parecem muito
diretos. Rosa
demorou a se
acostumar com a
pergunta à
queima-roupa:
“Que horas tu
tens aí?”,
pois em Angola o
costume manda
dizer “com
licença, por
favor, poderia
me informar que
horas são?”.
Há três anos
no Estado, a
francesa Gwen Rémond
ainda acha graça
cada vez que
atende o
telefone e
escuta “quem
é?” antes
mesmo de a
pessoa se
apresentar. Mas
há um hábito
novo que ela está
tentando
aprender.
–
Aqui, as pessoas
sempre oferecem
às visitas
alguma coisa, um
copo d’água.
Na França, não
é assim – diz
ela.
Os
estrangeiros são
unânimes em
afirmar que o
brasileiro é o
povo mais
paciente do
mundo, a julgar
pelas filas dos
bancos. Todos
parecem
habituados às
longas esperas e
à burocracia.
–
Nunca
entendi por que
as pessoas não
reclamam nas
filas de banco,
se brigam quando
estão em um
engarrafamento
– afirma a
japonesa Ayako
Kamijo.
 |
Ayako
ficou
surpresa
com a
facilidade
que as
pessoas,
mesmo
desconhecidas,
têm de
puxar
conversa.
Ao contrário
do Japão,
aqui o
papo rola
solto das
filas de
banco às
paradas de
ônibus, e
os colegas
de
trabalho
fazem
confidências
com
naturalidade.
O que, a
princípio,
foi um
susto se
transformou
em um dos
maiores
atrativos
da Capital
para Ayako:
–
Aqui, não
tenho família,
mas amigos
com quem
posso
falar de
meus
sentimentos.
Eles
sempre
dizem
“quando
precisar,
liga”.
No Japão,
também
dizem
coisas
assim, mas
é mais
por falar.
O
gaúcho é
descrito
como
alegre,
batalhador
e afetivo.
Mas antes
que se
estufem os
peitos de
orgulho, o
alemão
Ralf Krämer
faz uma
ressalva: |
–
A emoção é
aberta, e as
pessoas são
alegres, mas tu
tens que te
vestir do jeito
certo, ter a
aparência certa
e falar com um
porteiro de uma
forma e com a
sogra de outra.
Há um código a
seguir.
Uma
coisa é certa:
o código da
linguagem é uma
dificuldade
geral. Mesmo
depois de
dominar o
idioma, as gírias
e expressões
coloquiais ainda
dificultam a
vida dos
estrangeiros.
Ou, pelo menos,
causam situações
engraçadas.
–
O cobrador do ônibus
dizia “vem
acima”, e eu não
entendia o que
ele queria
dizer. Achava
que estava
falando comigo
– conta Rosa,
aos risos.
Se
conjugar os
verbos é difícil,
escolher o
pronome também
pode ser. Ian
nunca sabe
diferenciar quem
deve chamar de
tu ou senhor.
Andrew ainda não
distingue com
precisão as gírias
do idioma culto,
mas a
compatriota
Debra Godoy, há
20 anos no
Estado, já
arrisca o gauchês:
–
Tchê eu não
falo, mas um bá
sai de vez em
quando, como se
fosse um “oh,
my God”.

LAZER
E CULTURA
Porto
Alegre tem vida
cultural para
estrangeiro
nenhum botar
defeito. Ao
menos é o que
muitos deles
dizem. Mesmo que
o número de
atrações não
seja o mesmo de
seus países,
basta entrar em
sintonia com o
ritmo da cidade
para descobrir
opções
variadas de
diversão. Para
completar, os gaúchos
saem muito, de
segunda a
segunda, e
servem de estímulo
para quem vem de
fora conhecer
novos lugares.
–
Aqui, saímos
mais que na França.
Quando formos
embora sentirei
falta dessa vida
alegre –
afirma Gwen Rémond.
A
música parece
ser uma das
descobertas mais
surpreendentes.
Vitor Ramil e
Nei Lisboa são
citados como síntese
da Capital e do
Estado e viram
trilha dos novos
moradores. No país
do Carnaval, a
programação
das rádios também
provoca
surpresas.
–
Surpreendeu-me a
qualidade da música
e o gosto do gaúcho,
que é muito
roqueiro –
afirma o alemão
Ralf Krämer, fã
de Frank Jorge e
Wander Wildner.
Se
não falta espaço
ao rock, a música
clássica talvez
não tenha a
atenção
devida. A
japonesa Ayako
Kamijo pede mais
concertos e óperas
na Capital e
mais brasileiros
na platéia
desses espetáculos:
–
Adoro assistir a
concertos no
Theatro São
Pedro, mas
quando vou lá
tem pouca gente.
As
diferenças
entre culturas
também aparecem
no relógio. Em
Porto Alegre,
jantares, reuniões
de amigos e
festas começam
mais tarde que
nos Estados
Unidos e na França,
mas terminam no
meio do agito,
segundo o horário
de Madri, por
exemplo.
Resultado:
alguns
estrangeiros
amargam longas
esperas por
amigos ou
encontram a
porta de
restaurantes
fechada antes
das 20h, e
outros são
obrigados a
voltar para casa
mais cedo que de
hábito.
–
As festas começam
tarde. Já
tivemos de
esperar amigos
brasileiros por
muito tempo –
diz Gwen.
–
Os bares fecham
muito cedo, lá
pelas 4h. Em
Madri, vão até
as 8h – rebate
o espanhol Pedro
Lucendo.
Os
estrangeiros que
vivem na
Capital,
principalmente
os europeus,
comemoram a
recente
proliferação
de cafés, para
eles um marco de
civilização. Já
a estudante
angolana Rosa de
Almeida celebra
a oportunidade
de se divertir
sem mexer no
bolso:
–
Há muitos espetáculos
com entrada
franca. Em
Angola, se não
tiver dinheiro não
se consegue
fazer nada.
Aqui, sempre se
pode fazer
alguma coisa.

A
CAPITAL
À
primeira vista,
Porto Alegre
pode ser um
aglomerado
desordenado às
margens de um
rio de águas
turvas. A imagem
parecia mais
melancólica
quando a chegada
era no antigo
aeroporto, muito
modesto se
comparado aos
que recebem
turistas em
cidades do mesmo
porte da
Capital.
|
–
Quando
desci do
avião, há
seis anos,
a primeira
coisa que
vi foi o
Guaíba,
marrom. No
aeroporto
velho,
tinha
grama
entre as
placas de
concreto
da pista.
Pensei
“cheguei
ao fim do
mundo”
– lembra
o alemão
Ralf Krämer.
Mas
a primeira
e as últimas
impressões
da cidade
dependem
da origem
do
viajante.
A angolana
Rosa de
Almeida
chegou à
Capital em
1996 e se
surpreendeu
com a
diversidade
de Porto
Alegre, de
muitos
bancos,
restaurantes
e
diferentes
tipos de
edifício. |
 |
A
maioria dos
estrangeiros
concorda em dois
pontos: falta
uma camada de
tinta nas
fachadas, e os
prédios antigos
pedem restauração.
Outra surpresa
desagradável é
a naturalidade
com que as
pessoas jogam
lixo nas ruas e
ignoram os
dejetos deixados
pelos animais em
parques e praças.
Nem vale
argumentar que
os dois
problemas são
alvo de
repetidas
campanhas de
conscientização
e novas leis.
–
Nos Estados
Unidos, ganha
multa quem joga
lixo na rua ou não
limpa as
sujeiras de seu
cão. Aqui, é
preciso cuidar
onde se pisa –
diz Debra Godoy,
americana
nascida no Havaí.
Na
lista de reclamações,
estão a violência
e a pobreza.
Quem cresceu em
uma cidade sem
moradores de rua
não sabe como
lidar com um
mendigo.
–
No início,
ficava furioso
por as pessoas não
darem bola para
os mendigos na
rua. Pensei
“que país é
esse?” –
conta Ralf.
Sobram
elogios, no
entanto, para as
áreas verdes da
cidade, como a
Redenção e a
Praça da Alfândega,
e as belas
construções,
como a Usina do
Gasômetro, o
Theatro São
Pedro e outros
prédios antigos
do Centro. Está
bem cotado o
transporte público,
que permite ir
de um ponto a
outro com
facilidade,
oferecendo múltiplas
possibilidades a
quem não tem
carro.
-
Não dependo de
ninguém para me
deslocar. E
ainda posso
ligar reclamando
se o motorista
do ônibus não
parar elogia
Rosa.
|
A
paisagem
com morros
e o clima
de estações
definidas
ajudam os
europeus a
se
sentirem
em casa. A
proximidade
com a
Serra
encanta os
mais
resistentes
e vira
ponto
obrigatório
de visita,
mas na
volta para
Porto
Alegre o
gosto
pelas
alturas e
belas
imagens
gera uma
incompreensão.
–
Os morros
aqui têm
uma vista
muito
bonita,
mas ninguém
quer morar
lá. Só
os pobres
usufruem
– afirma
o
australiano
Ian
Alexander.
Quando
o assunto
é
paisagem,
vem à
tona uma
polêmica
que fere
os brios
da maioria
dos
porto-alegrenses:
o aclamado
pôr-do-sol.
Os
estrangeiros
não vêem
nada de
mais no
cartão de
visitas
oficial da
cidade. |
 |
–
Na Alemanha, o pôr-do-sol
é muito mais
longo e, quando
há nuvens, se vêem
todas as cores
possíveis.
Aqui, não dá
para se
descuidar na
hora de ver o pôr-do-sol
ou, puf, já
acabou –
provoca Ralf.
-
Toda
cidade tem pôr-do-sol.
O daqui é
bonitinho, mas
nada fora do
comum. Até
minha esposa,
que é gaúcha,
admitiu –
completa Ian. |