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Porto Alegre, RS, 2008.

 
 
 
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CHURRASCO E CHIMARRÃO, nesta página tu vais conhecer a origem do churrasco  e do chimarrão e aprender como prepara-los, um  hábito típico do Rio Grande do Sul que já virou marca Nacional.  

Churrasco

    Conta a lenda que o homem só descobriu o fogo porque precisava achar uma forma de preparar um bom churrasco de dinossauro. Brincadeiras à parte. Logo após a descoberta do fogo, o homem aprendeu a assar as carnes tornando-as dessa forma mais saborosas, macias e de digestão mais fácil.

A carne assada na brasa foi importante na formação do conceito de comunidade pois, sua divisão era feita em torno da fogueira, normalmente, lugar onde as pessoas se reuniam para comer.

Se perguntar a um brasileiro quem é o criador do churrasco, ele certamente responderá que é um gaúcho. Se perguntar a um argentino ele dirá que foi um conterrâneo e, assim por diante.

Assar carnes na brasa ou fogo tem sido um dos métodos mais utilizados pelo homem e as mais diversas culturas se utilizam deste método de cozimento. Portanto o churrasco é universal. Não podemos atribuir sua invenção a nenhum povo em especial.

É claro que algumas culturas são mais criativas do que outras, bem como algumas regiões mais ricas em ingredientes. Isso sim faz a diferença e demonstra a criatividade de cada cultura. Seriam necessárias várias paginas de texto para falarmos tudo sobre churrasco e, mesmo assim, não sei se seria possível, pois cada um tem um ponto de vista e uma verdade sobre o tema.
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Churrasco dos pampas

No Rio Grande do Sul, o churrasco tradicional é feito em pedaços de carne muito grandes e em fogo de lenha no chão. Os espetos de madeira são cravados no chão, na diagonal e perto do fogo. Dali se tiram lascas das partes externas mais assadas, enquanto as mais internas ficam assando.

O fogo deve ser aceso bem antes do horário de servir as carnes, para se obter um braseiro parelho e forte, com mais brasas do que fogo. Enquanto o fogo é feito, pode-se preparar aperitivos para amigos e família. No sul, o churrasco se come recém saído da brasa, na tábua do assador, aos nacos, com farinha ou molhos, bem ou mal passado, conforme o gosto. Mas há quem preferira seu próprio prato, completando-o com saladas e polenta frita, por exemplo.

Churrasco no espeto

Quantidade de carne

Preparar um bom churrasco nem sempre é uma tarefa fácil porque requer um certo planejamento para que tudo saia conforme o esperado. Planeje o evento com uma certa antecedência e não esqueça de preparar uma lista de compras com tudo aquilo que irá utilizar. A escolha das carnes é importante. Dê preferência a produtores conhecidos e carnes que tenham o selo de registro, isso garantirá que você não ira comprar carnes de abatedouros clandestinos.

Basicamente, para o preparo de um churrasco é necessário um bom corte de carne, sal e carvão ou lenha. A conta para a quantidade de carne por pessoa é muito simples. Na maioria dos casos, 300g de carne pura por pessoa são suficientes. Leve em conta o tipo de corte, pois alguns podem conter ossos e gorduras.

Lembre-se que além das carnes, há as guarnições para acompanhar a churrascada! Então, não precisa ser tão preciso nas medidas.

Temperos para o churrasco

Sal grosso ainda é o tempero mais conhecido por aqui. Normalmente é salpicado à carne para em seguida ser colocada na churrasqueira. Após estar bem assada, bate-se de leve na carne para retirar o excesso de sal. Isso não impede de colocar nossa criatividade em ação. Podemos acrescentar ervas, azeites, marinadas, especiarias e, diga-se de passagem, algumas carnes ficam muito mais saborosas quando bem temperadas.

Para cortes bovinos magros, o sal grosso é uma boa opção. Não devemos esquecer de acrescentar um toque de pimenta-do-reino moída na hora. Para os cortes maiores e com maior teor de gorduras, pode-se colocar a carne para marinar em vinho com ervas, cebola, alho e especiarias.

Cordeiro combina com alho, com alecrim e com vinho branco, portanto uma marinada com estes ingredientes valoriza o sabor da carne. Já a carne suína combina com sabores levemente adocicados. Um bom lombo de porco pode ficar por uma 4 horas marinando em suco de laranja ou abacaxi com paus de canela e alguns cravos-da-índia, não se esquecendo de acrescentar algumas ervas frescas.

Pescados em geral casam muito bem com limão, azeite de oliva, vinho branco e salsinha, e colocar o peixe por uns 20 minutos nessa marinada irá realçar o sabor. Frango combina com quase tudo, portanto pode-se variar as marinadas. Uma dica para o frango ficar bem crocante, macio e suculento é coloca-lo de molho em salmora preparada na proporção de uma colher de sopa de sal para cada xícara de água. Cubra o frango e deixe repousando por 6 a 8 horas, depois escorra e coloque na brasa.

Assando a carne !

Se a carne estiver congelada, deixe em temperatura ambiente por cerca de 12 horas.

Descongelar com água ou microondas fatalmente irá afetar o sabor e a textura da carne.

Carne mal descongelada no fogo é desastre certo. Não adianta achar que o calor vai terminar o descongelamento.

O fogo cria na carne uma casca que impede o gelo de derreter, e o resultado final são as famosas "molitas" (fêmea do tatu), ou seja uma casca grossa e dura por fora e o bicho vivo por dentro!

A carne maturada embalada a vácuo, deve ser aberta no mínimo 30 minutos antes de ir pro fogo, para tirar um cheirinho peculiar à esse tipo de carne. Costumo passar essas carnes pela torneira para tirar aquele sangue escuro.

Colocar carne no leite ou no outra substância para amaciar, é sacrilégio. Se a carne é dura não serve pra churrasco e ponto final.

As carnes grandes e sem osso vão para a grelha: Picanha, maminha, entrecot (contrafilé). Costela, salsichão e medalhões de picanha assam melhor em espetos.

A polêmica entre grelha (não deixa a carne perder o suco) e o espeto (permite posicionar a carne de qualquer lado), não deve ser levada à ponta de faca. Já provei e assei picanhas inteiras feitas no espeto com todo caldo e sabor. Mas já se estragou muita carne em grelha...

Fundamental é a qualidade da carne e o trabalho com o fogo durante o assado.

Churrasco pronto

A essa altura o time dos aflitos já está louco para salgar.... calma! O sal antes do fogo endurece a carne.

Acenda o fogo quando chegar o primeiro parceiro, para não correr o risco de aprontar a carne antes do povo chegar. Assador com horário, achando que é almoço, não se cria!

Fogo pronto e parelho coloque as lingüiças e carnes menores mais em baixo e as costelas, maminhas e picanhas no alto.

Deixe as carnes pegarem cor e calor antes de salgar: tire do fogo e espalhe - sem exagero - sal grosso ou médio por toda a carne. Para os mais experientes a salmoura (água quente) é o ideal.

Volte ao fogo e deixe branquear o sal.

Nunca deixe a carne salgada antes de botar no fogo, é carne dura e seca na certa!

 

Dicas de como servir

O churrasco pode ser servido em duas etapas: uma com carnes que servem como tira gosto e outra com os cortes mais nobres. Para começar, sirva costelinhas de porco, lingüiças variadas e coração. Em seguida, sirva os cortes maiores como a picanha, maminha e costela entre outras. Cortes suínos como o lombo são uma boa opção. Mas, o ideal é não misturar no mesmo churrasco carnes muito diferentes, pois nem sempre o apetite é suficiente para experimentarmos todos os cortes.

Nem só de carne bovina e suína vive uma churrasqueira. Ela também pode ser abastecida com pescados e crustáceos em geral, cabrito, coelho e outras carnes. Os pescados preparados na brasa são deliciosos, principalmente peixes de água doce como o tambaqui, pintado e até mesmo a truta.

 

O Chimarrão

Chimarrão

Origens do Chimarrão

Roberto Ave-Lallemant (1812-1884) visitando o Rio Grande do Sul em março de 1858, registra a importância folclórica da erva-mate: "O símbolo da paz, da concórdia, do completo entendimento – o mate! Todos os presentes tomaram o mate. Não se creia, todavia, que cada um tivesse sua bomba e sua cuia própria; nada disso! Assim perderia o mate toda a sua mística significação. Acontece com a cuia de mate como à tabaqueira. 

Esta anda de nariz em nariz e aquela de boca em boca. Primeiro sorveu um velho capitão. Depois um jovem, um pardo decente – o nome do mulato não se deve escrever; depois eu, depois o “spahi”, depois um mestiço de índio e afinal um português, todos pela ordem. Não há nisso, nenhuma pretensão de precedência, nenhum senhor e criado; é uma espécie de serviço divino, uma piedosa obra cristã, um comunismo moral, uma fraternidade verdadeiramente nobre, espiritualizada! Todos os homens se tornam irmãos, todos tomam o mate em comum!"
(Viagem pelo Sul do Brasil, 1.º, 191. Rio de Janeiro, 1953).

A palavra chimarrão tem origens no vocabulário espanhol e português.

Do espanhol cimarrón, que significa chucro, bruto, bárbaro, vocábulo empregado em quase toda a América Latina, do México ao Prata, designando os animais domesticados que se tornaram selvagens. "E assim, a palavra chimarrão, foi também empregada pelos colonizadores do Prata, para designar aquela rude e amarga bebida dos nativos, tomada sem nenhum outro ingrediente que lhe suavizasse o gosto."
(Elucidário Crioulo, de Antonio Carlos Machado em História da Erva-Mate, de Barbosa Lessa, 57).

Marron em português, além de outros significados, quer dizer clandestino, e cimarrón, em castelhano, tem idêntico significado. Ora, sabe-se que o comércio de mate e o preparo da erva foram em tempos passados proibidos no Paraguai, o que não impedia, entretanto, que clandestinamente continuasse em largo uso naquela então colônia espanhola.
(Vocabulário Sul-Rio-Grandense, Luís Carlos de Morais, 72, em História da Erva-Mate, de Barbosa Lessa, 57).

Lenda da Erva-mate

Conta a lenda da Erva–Mate que um velho guerreiro guarani vivia triste em sua cabana pois já não podia mais sair para as guerras, nem mesmo para caçar e pescar, vivendo só com sua linda filha yari, que o tratava com muito carinho, conservando-se solteira para melhor dedicar-se ao pai.

Um dia, Yari e seu pai receberam a visita de um viajante que pernoitou na cabana recebendo seus melhores tratos. A jovem cantou para que o visitante adormecesse e tivesse um sono tranqüilo, entoando um canto suave e triste.

Ao amanhecer, o viajante confessando ser enviado de Tupã, quis retribuir-lhes a hospitalidade dizendo que atenderia a qualquer desejo, mesmo o mais remoto. O velho guerreiro, sabendo que sua jovem filha não se casara para não abandoná-lo, pediu que lhe fosse devolvidas as forças, para que yari se tornasse livre.

O mensageiro de Tupã entregou ao velho um galho de árvore de Caá, ensinando-lhe a preparar uma infusão que lhe devolveria todo o vigor. Transformou ainda Yari, em deusa dos ervais e protetora da raça Guarani, sendo chamada de Caá-Yari, a deusa da erva-mate. E assim, a erva foi usada por todos os guerreiros da tribo, tornando-os mais fortes e valentes.

Quando os espanhóis por aqui chegaram, encontraram os índios guaranis dóceis e receptivos, já então utilizando uma bebida que sorviam em cabaças por meio de um canudo, preparada, com folhas de uma árvore nativa da região – chamada cáa – dizendo que esta lhes havia sido dada pelo deus Tupã. De imediato os espanhóis adquiriram este hábito e passaram a tomar o chimarrão, desde os soldados até oficiais, sem distinção de classes sociais.

O chimarrão, tradicional e salutar hábito do Rio Grande do Sul, é um símbolo da hospitalidade do gaúcho, que oferece sempre a qualquer visitante. Atualmente, é bebido em uma cuia onde depositamos um pouco de erva-mate já moída e de onde sorvemos o líquido (água quente sem ferver), através de uma bomba de metal.

O costume de tomar chimarrão está bastante difundido, tanto no meio rural como no urbano e faz parte da vida do gaúcho desde o amanhecer até a noite, quando encerra suas tarefas do dia.

Benefícios

Análises e estudos sobre a erva-mate têm revelado uma composição que identifica diversas propriedades nutritivas, fisiológicas e medicinais no produto, o que lhe confere um grande potencial de aproveitamento. O mestre em botânica Renato Kaspary em publicação de 1991 sobre erva-mate e Eunice Valduga, em dissertação para obtenção do grau de mestre (95), trazem várias informações a respeito.

Na constituição química da erva-mate, aparecem:

Alcalóides (cafeína, metilxantina, teofilina e teobromina), taninos (ácidos fólico e cafeico), vitaminas (A, Bi, B2, C e E), sais minerais (alumínio, cálcio, fósforo, ferro, magnésio, manganês e potássio), proteínas (aminoácidos essenciais), glicídeos (frutose, glucose, rafinose e sacarose), lipídeos (óleos essenciais e substâncias ceráceas), além de celulose, dextrina, sacarina e gomas.

Assim, considera Kaspary, "a erva- mate é considerada um alimento quase completo, pois contém quase todos os nutrientes necessários ao nosso organismo".

Também é extenso o rol de propriedades terapêuticas da erva-mate, de modo especial em razão da presença de alcalóides, como a cafeína, na sua composição.

Destaca-se principalmente que o mate é estimulante da atividade física e mental, atuando beneficamente sobre os nervos e músculos eliminando a fadiga. Observa-se também que estimulante do mate é mais prolongada que a do café, sem deixar efeitos colaterais ou residuais como a insônia e irritabilidade. Por outro lado, a erva-mate atua sobre a circulação, acelerando o ritmo cardíaco e harmoniza o funcionamento bulbo-medular. Age também sobre o tubo digestivo, facilita a digestão e favorece a evacuação e mictação. É considerada ainda um ótimo remédio para pele e reguladora das funções do coração e da respiração, além de exercer importante papel na regeneração celular.

O chimarrão, segundo institutos de pesquisas internacionais, é um tônico estimulante do coração e do sistema nervoso: elimina os estados depressivos, conferindo ao músculo maior capacidade de resistência a fadiga, sem causar efeitos colaterais. Após estudos realizados sobre os efeitos fisiológicos exercidos pela erva-mate concluíram: O emprego da infusão aumenta as forças musculares, desenvolve as faculdades mentais, tonifica o sistema nervoso, regulariza e regenera as funções do coração e respiração, facilita a digestão e determina uma sensação de bem estar e vigor no organismo, sem acarretar depressões ou qualquer efeito colateral no organismo, como a insônia, palpitações ou agitações nervosas provocadas por outras bebidas similares, permite como bom alimento (natural) que sejam suportadas as fadigas e a fome.

A erva-mate contém altas proporções de vitamina E, efetiva na regulação das funções sexuais, além de ser um elemento indispensável para a pele. As análises feitas com as folhas de erva-mate mostram que esta planta possui vitaminas, aparecendo em maior escala as do complexo B; possui também cálcio, magnésio, sódio, ferro e flúor, minerais indispensáveis a vida.

O chimarrão é rico em ácido pantotênico, encontrado em menor escala na tão propalada geléia real das abelhas, muito procurada pelas características medicinais que possui.

A Erva mate e o porongo

O Porongo, propriamente dito, já era conhecido pelos Índios Guaranis no ano de 1580, quando então receberam os Jesuítas de Manoel da Nóbrega que prontamente se apresentaram para vir ao Guairá. Eles serão os pioneiros da Companhia de Jesus no Paraguai, eles, os Jesuítas da província de Portugal. Sofreram rivalidades e acusações infundadas, prisão, ferro e humilhações.

Estiveram quase perto de Porto Alegre, pois andaram na Aldeia dos Anjos (hoje Gravataí), foram embrulhados devidamente pelo astuto Cacique Anjos, e só desistiram do sul porque eles iam fatalmente entrar em choque de interesses com os Jesuítas Castelhanos, que desde Lima, Peru, avançavam pelo sul e para o leste.

Pois foi no Guairá que os Jesuítas encontraram a “Erva do Diabo” uma droga que tirava o cansaço dos índios e fazia com que não sentissem a fome e até excitava-os sexualmente.

Era muito fácil fazer o tal chá. Primeiro, os índios colhiam a erva no mato ("Caa", em Guarani, quer dizer tanto mato como erva), sapecavam ligeiramente as folhas com os restinhos dos galhos segados, amarravam um feixe com essas ramas por cima do fogo e alí ficava tudo, balanceando e ressecando devidamente. Quando as folhas estavam estalando e se rachando, era só socá-las num pilão de madeira dura com um toco longo, fino e cabeçudo, chamado de "Mão de Pilão." Tinha-se assim, e em menos de uma semana, erva pronta para o preparo do tal chá Guarani.

Era assim: O índio pegava o fruto de uma planta (Legionária Vulgaris, uma das cucurbitáceas, portanto parente da velha abóbora campeira) chamada de "Porongo", em forma de oito. À  parte de cima, a parte menor do oito, era cortada e deixada para secar. Então ficava pronta a cuia, recipiente do tal chá.

Plantio

O plantio do porongo se dá nos meses de Julho, Agosto, Setembro e raramente em Outubro.

A primeira colheita se faz no mês de Janeiro quando o Porongo já está lorando (ficando maduro) e pronto para ser raspado manualmente ou no escovão de aço, permitindo assim uma cor amarelada. Nesses casos, o Porongo deve ter uma atenção redobrada no processo de secagem para não "xuringar" (encolher, retorcer-se), outra maneira é deixar o Porongo secar na lavoura, aonde a colheita se faz lá pelo mês de maio, permitindo uma secagem uniforme e homogenia. Começa aí, o processo de beneficiamento do Porongo para transformá-lo em cuia.

Beneficiando o porongo

Após a colheita, corta-se o Porongo na parte de cima, separando-se a cuia da parte de baixo do Porongo, chamada de “Bunda do Porongo.”

Já com a cuia extraída do Porongo, coloca-se a mesma em estaleiro e a sombra onde circula corrente de ar, para não rachar e perder seu cheiro característico. Após isso, em primeiro lugar fura-se o centro da cuia retirando do seu interior, o bagaço mole até chegar na parede dura da cuia, após, lixa-se a aba ou bocal e seu interior deixando-a bem lisinha.

A parte do acabamento fica por conta de uma boa cera de polir, em um motor de alta rotação para dar brilho uniforme. Temos então, uma cuia lisa e polida.

A cuia

A cuia dentre os apetrechos do mate, é a mais cantada e declamada pelos poetas sulinos. A cuia, que deve ser sempre de Porongo e, prefencialmente, o Porongo grosso ou doce, é o recipiente mais adequado para o Mate ou chimarrão do gaúcho, já que não modifica o seu sabor, não permite que a erva fique lavada precocemente, e não alterando ainda, a temperatura da água.

Existem cuias, confeccionadas de outros materiais, tais como madeira, barro cozido, porcelana, vidro e até de plástico, que foram diferentes tentativas de se buscar outros recipientes para o mate, em períodos diversos da história. Tentativas essas que restaram frustradas, já que nenhum se mostrou capaz de competir com o velho Porongo, descoberto pelos Índios Guaranis e conservado hediornamente, como vasilha ideal para o mate, cujo plantio é intensificado ano após ano, já que o hábito de matear continua fazendo adeptos.

Escolhendo uma boa cuia

Para se escolher uma boa cuia, quer para chimarrão, quer para mate-doce, deve-se primeiramente levar em consideração o tipo de Porongo "Casco Grosso e Doce" que é de uma variedade mais apropriada ao mate. Se para matear sozinho, uma cuia pequena, para matear duas ou três pessoas, uma cuia média, para matear em rodas de chimarrão, usa-se uma cuia grande.

Como curar a sua cuia de porongo

Para curar a cuia de Porongo, é necessário que a mesma seja cheia antes do seu uso, com água quente, não fervida, e cinza de lenha de fogão ou lareira, para eliminar fungos ou bactérias, evitando mofo e ainda, enrijecer o casco, deixando-se por aproximadamente 24 horas, completando-se a água sempre que absorvida pelo Porongo até o bocal da cuia. Após, a cuia deve ser lavada em água corrente deixando-se secar por 72 horas, na sombra e em local ventilado. Finalmente, colocam-se novamente, duas a três colheres de sopa de erva-mate nova de sua preferência e água quente (não fervida) para não trincar ou rachar a cuia, e para curtir a cuia parelha.

Após, novamente, deixa-se secar por mais 48 horas; o ideal é repetir o processo por duas ou três vezes.

Conservando sua cuia de porongo

Uma cuia bem curada é um processo que deve durar de 12 a 15 dias, exigindo-se muito cuidado e carinho, pois esta não pode cair no chão, não deve ficar exposta ao sol, e deve ser bem lavada e enxugada com um pano de algodão.

Para se conservar uma cuia de Porongo sempre boa, sem azedar ou alterar o gosto do mate, é necessário tomar alguns cuidados, tais como: Primeiramente, a cuia não deve ser envernizada ou pintada externamente, deve ser polida com cera para dar brilho natural ao Porongo.

A cuia depois de curada, não pode ser usada diariamente, de forma contínua. O ideal, é que se use a cuia em um dia e outro não, deixando sempre secar em local arejado e na sombra, não podendo ficar com a boca para baixo, para não mofar.

Fonte: 500 Anos de História da Erva-Mate
Autor: Dorival Berkai e Airton Braga
Editora do Cone Sul
3ª ED. História da Erva-Mate Barbosa Lessa / Sulina Porto Alegre - RS  1986

Preparando o Chimarrão

Primeiro passo

Segundo passo

Coloque a erva dentro da cuia. Incline-a um pouco e abafe com a mão em diagonal.

Coloque água morna com muito cuidado e com a cuia inclinada e deixe o erva absorver toda a água.

Terceiro passo

Quarto passo

Ainda com a cuia inclinada, coloque a bomba devagar. Deve-se tapar com o dedo o bico da cuia na inserção.

Arrume a bomba conforme o seu gosto, não esquecendo de virar o bico da bomba para o lado de fora da cuia.

Pronto ! Agora é só saborear o seu autêntico CHIMARRÃO.

 

10 Mandamentos do Chimarrão
Pércio de Moraes Branco
Almanaque Tchê

NÃO PEÇAS AÇÚCAR NO MATE
O gaúcho aprende desde piazito que e por que o chimarrão se chama também mate amargo ou, mais intimamente, a
margo apenas.
Mas, se tu és dos que vêm de outros pagos, mesmo sabendo poderás achar que é amargo demais e cometer o maior sacrilégio que alguém pode imaginar neste pedaço do Brasil: pedir açúcar. Pode-se pôr na água ervas exóticas, cana, frutas, cocaína, feldspato, dólar etc, mas jamais açúcar.

O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo mas não merece ouvir um pedido desses. Portanto, tchê, se o chimarrão te parece amargo demais não hesites: pede uma Coca-Cola com canudinho. Tu vais te sentir bem melhor.

 

NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO É ANTI-HIGIÊNICO

Tu podes achar que é anti-higiênico pôr a boca onde todo mundo põe.

Claro que é. Só que tu não tens o direito de proferir tamanha blasfêmia em se tratando do chimarrão. Repito: pede uma Coca-Cola com canudinho.

O canudo é puro como água de sanga (pode haver coliformes fecais e estafilococos dentro da garrafa, não no canudo).

 

NÃO DIGAS QUE O MATE ESTÁ QUENTE DEMAIS

Se todos estão chimarreando sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é perfeitamente suportável por pessoas normais.

Se tu não és uma pessoa normal, assume e não te fresqueies.

Se, porém, te julgas perfeitamente igual às demais, faze o seguinte: vai para o Paraguai. Tu vais adorar o chimarrão de lá.

 

NÃO DEIXES UM MATE PELA METADE

Apesar da grande semelhança que existe entre o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais. Com o cachimbo da paz, cada um dá uma tragada e passa-o adiante. Já o chimarrão, não. Tu deves tomar toda a água servida, até ouvir o ronco de cuia vazia. A propósito, leia logo o mandamento seguinte.

 

NÃO TE ENVERGONHES DO "RONCO" NO FIM DO MATE

Se, ao acabar o mate, sem querer fizeres a bomba "roncar", não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém vai te julgar mal-educado. Este negócio de chupar sem fazer barulho vale para Coca-Cola com canudinho, que tu podes até tomar com o dedinho levantado.

 

NÃO MEXAS NA BOMBA

A bomba do chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa dela mesma, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens todo o direito de reclamar. Mas, por favor, não mexas na bomba.

Fale com quem lhe ofereceu o mate ou com quem lhe passou a cuia.

Mas não mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas na bomba.

 

NÃO ALTERES A ORDEM EM QUE O MATE É SERVIDO

Roda de chimarrão funciona como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre na mesma ordem. Para entrar na roda, qualquer hora serve mas, depois de entrar, espera sempre tua vez e não queiras favorecer ninguém, mesmo que seja a mais prendada prenda do Estado.

 

NÃO "DURMAS" COM A CUIA NA MÃO

Tomar mate solito é um excelente meio de meditar sobre as coisas da vida.

Tu mateias sem pressa, matutando, recordando... E, às vezes, te surpreende até imaginando que a cuia não é cuia mas o quente seio moreno daquela chinoca faceira que apareceu no baile do Gaudêncio... Agora, tomar chimarrão numa roda é mui diferente.

Aí o fundamental não é meditar e sim integrar-se à roda.

Numa roda de chimarrão, tu falas, discutes, ri, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização.

Só que esta tua participação não pode ser levada ao extremo de te fazer esquecer da cuia que está em tua mão.

Fala quanto quiseres mas não esqueças de tomar teu mate, que a moçada tá esperando.

 

NÃO CONDENES O DONO DA CASA POR TOMAR O 1º MATE

Se tu julgas o dono da casa um grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio o primeiro, saibas que grosso é tu. O pior mate é o primeiro e quem o toma está te prestando um favor.

 

NÃO DIGAS QUE CHIMARRÃO DÁ CÂNCER NA GARGANTA

Pode até dar. Mas não vai ser tu, que pela primeira vez pegas na cuia, que irás dizer, com ar de entendido, que chimarrão é cancerígeno. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esquece o câncer. Se não der para esquecer, faze o seguinte: pede uma Coca-Cola com canudinho, que ela... etc, etc.

Na intimidade do mate

 

Um dos melhores livros sobre o mate, dicas e orientações. Dá uma olhada numa livraria e compra o dito.


O ato de prepara o mate pode ser chamado de:

  • cevar o mate

  • fechar o mate

  • fazer o mate

  • enfrenar o mate

  • ou CHIMARRÃO

A palavra amargo também é usada em lugar de mate ou chimarrão. Convite para tomar mate:

  • vamos matear?

  • vamos gervear?

  • vamos chimarrear?

  • vamos verdear?

  • vamos amarguear?

  • vamos apertar um mate?

  • vamos tomar mate ou um mate?

  • vamos tomar um chimarrão?

  • que tal um mate?

O mate pode ser tomado de três maneiras, em relação à companhia: o mate solito (isoladamente); o mate de parceria (uma companheira ou companheiro) e, finalmente, em roda de mate (em grupo).

  1. O MATE SOLITO
    O homem que não precisa de estímulo maior para matear, que sua vontade; no geral, é o verdadeiro mateador.

  2. O MATE DE PARCERIA
    A pessoa espera por um ou dois companheiros a fim de motivar o mate, pois não gosta de matear sozinha.

  3. RODA DE MATE
    É na roda de mate que esta tradição assume seu apogeu, agrupando pessoas sem distinção de raça, credo, cor ou posse material (o homem vale pelos seus atos). Irmanados dentro deste clima de respeito, o mate vai integrando os homens numa trança de usos e costumes, que floresce na intimidade gaúcha.

O gaúcho nunca pede um mate, por mais vontade que tenha. Poderá sugeri-lo de forma sutil, esperando que lhe ofereçam. Há um respeito mítico, nas rodas de mate, percebido até por pessoas alheias ao meio, trascendendo ao próprio ato de matear. Introspectivo por excelência, induz o homem a uma busca interior, despertando a auto-análise em relação ao meio. Companheiro calado nos mates solitos, se fez vaqueano deste silêncio, onde se amansam sentimentos para a grande compreensão da vida!

 

A MÃO DIREITA Para se receber o mate ou entregar a cuia de mate, deverá ser feito com a mão direita. No caso da mão direita estar ocupada, a pessoa deverá dizer:

- Desculpe a mão!
Ao que o outro responde:
- É a mesma, a do coração.
Fora dessa exceção, sempre com a mão direita.

 

ENCHENDO O MATE No ato de encher o mate, pega-se a cuia com a mão esquerda e o recipiente com a direita. Após, acomoda-se o recipiente e se troca a cuia de mão para matear ou oferecer o mate, seguindo-se, sempre, pelo lado direito, o lado de laçar.

O sentido da volta na roda de mate deverá partir pela direita do cevador ou enchedor de mate.

 

A ÁGUA PARA PREPARAR O MATE A temperatura da água para preparar o mate nunca deve estar muito quente, pois pode queimar a erva, dando um gosto desagradável ao mate e lavando rapidamente.

 

O PIALADOR DE MATE É o indivíduo que, chegando numa roda de mate, se posiciona de tal modo que a cuia fique a sua esquerda, à frente da pessoa que está mateando, lembrando o campeiro que se posiciona estrategicamente à saída da mangueira!

O correto quando se cheganuma roda de mate é ficar antes do mateador, isto é, tendo a pessoa que está mateando a sua direita.

 

A ÁGUA DO MATE A água para o mate nunca deverá ser fervida, pois se tornaria pesada, pela perda de oxigênio, transmitindo um sabor diferente ao mateador.

O ideal é quando a água apenas chia.

 

CEVAR COM CACHAÇA Algumas pessoas quando fecham um mate (ato de preparar o mate), costumam, em lugar de água para inchar a erva, colocar cachaça, pois a cachaça fixa por mais tempo a fortidão da erva-mate, sem deixar o gosto do álcool. Este modo de preparar serve tanto o mate amargo (chimarrão) como para o mate doce.

A cachaça é só para iniciar o mate. Uma vez inchada a erva, cospe-se fora a infusão até roncar bem a cuia, esgotando-se comletamente o líquido. Depois desta operação, é só seguir cevando normalmente, com água, o mate.

 

SÓ O CEVADOR PODE MEXER NO MATE A menos que se obtenha licença, só o cevador deve arrumar o mate, considerando-se falta de respeito alguém mexer sem permissão. Mesmo que o topete (barranco) esteja se desmanchando ou qualquer outro problema com o mate, devemos entregá-lo ao enchedor ou cevador. Podemos, isto sim, ao devolver a cuia, avisá-lo da ocorrência.

O bom cevador, cada vez que recebe a cuia, antes de enchê-la, dá uma ajeitada na bomba, de modo que renove o fluxo de seiva, demonstrando, assim, seu conhecimento na intimidade com o mate.

 

EM RODA DE MATE É comum, após o primeiro mate, que sempre é do cevador (o que faz o mate), ter início a rodade mate a partir do mais velho ou de alguém a quem se queira homenagear.

Quando já estamos mateando e chega alguém a quem desejamos mostrar deferência especial, é fechado um novo mate em sua homenagem.

 

O PRIMEIRO MATE Como já falamos, todo aquele que fecha um mate (faz o mate) deve tomar o primeiro em presença do parceiro ou na roda de mate.

Este fato tornou-se tradicional devido a épocas remotas em que o mate serviu de veículo para envenenamentos. Por isso, o ato do mateador tomar o primeiro indica que o mate está em condições de ser tomado.

Ainda no caso do primeiro mate, outro motivo que nos chega foi devido aos jesuítas, que atribuindo valores afrodisíacos ao mate, e para evitar que os índios passassem a maior parte do dia mateando, tentando afastá-los do hábito, criaram o mito entre os silvícolas cristianizados que Anhangá Pitã (diabo) estava dentro do mate.

Mas não foram bem sucedidos os jesuítas e o hábito salutar sobrepujou o temor que lhes fora impresso. Por isso, toda vez que o indígena ia tomar um mate em presença dos outros, tomava o primeiro mate como demonstração que Anhangá Pitã não se encontrava no mate.

 

RONCAR CUIA Uma vez servido o mate, deve ser tomado todo, até esgotá-lo, fazendo roncar a cuia.

 

Fonte: Cevando o Mate - 10ª edição - Glênio Fagundes - Editora Rígel

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